Arcas da memória

Os Meus Misteriosos Pais,<br>de José Viale Moutinho<br>Os Segredos da Censura,<br>de César Príncipe

Domingos Lobo
Rainer Daehnhardt diz-nos que, enquanto povo de diásporas, o português possui uma «espécie de anarquismo positivo» que lhe permite ultrapassar as mais complexas situações graças a esse poder imaginativo a que chamamos «desenrascanso». A nossa literatura, sobretudo a partir do século XIX, tentou interpretar essa estranha singularidade que é ser-se português, esse paradoxo entre a pertença a um lugar e o modo de expormos essa condição, de a imaginarmos, de reconstruirmos através dos mecanismos da memória e dos afectos, as mitologias do espaço e da identidade. Nem sempre essa inventariação do nós colectivo se fez de forma racional mas foi, através desses linimentos, que elaborámos a nossa peculiar relação com o mundo, a coexistência com outras culturas.

Ao longo dos séculos criámos uma mística da identidade, esculpimos na areia esse irrealismo com o qual nos fomos retratando, a ideia messiânica de um destino mais alto que as nossas pernas, horizontes históricos mais largos que as nossas efémeras glórias permitiam, e tudo isso, essa carga mitológica, serviu ao fascismo para nos tolher durante décadas e criar uma realidade inventada nos covis do medo e da censura – um país – máscara sonegado ao real.

O País com rosto, com sentido cívico e moral, libertário e criativo, saído da Revolução de Abril, permitiu-nos, finalmente, assumir com verdade, com serena e expositiva argumentação, o nosso passado recente, as grandezas e misérias dessa trajectória comum, sabendo que «a consciência da nossa fragilidade histórica projecta os seus fantasmas simultaneamente para o passado e para o futuro».1

Os Meus Misteriosos Pais, de José Viale Mouitinho

Viale Moutinho é um escritor poliédrico, cultor de muitos e variados géneros literários, do romance à crónica, do ensaio ao conto, passando por textos de ficção e de divulgação para a infância e juventude, género em que se inscreve este oportuno Os Meus Misteriosos Pais. Este livro do autor de Histórias do Tempo da Outra Senhora, traça o percurso do jovem Álvaro, que já foi Carlos, Alberto, Augusto, António, pelos difíceis caminhos da clandestinidade, esses tempos de sombras e de infâmia, mas também de recusa, de luta e de heroísmo (e é por este lado solar que o autor vai), ainda hoje quase ignorados pela maioria do nosso povo devido a preconceitos ideológicos ou a estigmas herdados do passado, apesar de Abril e desse incontornável livro de Manuel Tiago Até Amanhã, Camaradas, de filmes, séries e da vasta bibliografia disponível.

No entanto, este livro de José Viale Moutinho preenche uma importante lacuna: traz para os jovens de hoje, para a sensibilidade de hoje, as histórias verdadeiras do nosso passado recente. Narrativas que falam, de modo aberto e sagaz, de medos e angústias, também de alegria, de fraternidade, de esperança, fazendo-o com perfeito domínio dos elementos históricos, desenhando de forma inovadora, numa linguagem solta, didáctica e dialogal esse claro/escuro dos dias do fascismo e da resistência.

E esse didactismo, o rigor da exposição, dá-nos a ver o fascismo de Salazar que se recusava a desenvolver o País, que o calava a trote de porrete, sevícias, esbirros e ilhas de morte; que exaltava a indigência e a ignorância como modo de ser; que criou um país irreal de silêncios brumosos e de «brandos costumes».

Nos dezasseis breves capítulos que fazem este livro, Viale Moutinho diz-nos do ensino e da mediocridade oficializada; da violência nas escolas e da mocidade portuguesa; dos medos que assolavam as noites; do viver clandestino; da guerra colonial; da censura; dos símbolos clandestinos, como a bicicleta (numa emotiva evocação de Luís Veiga Leitão); das tipografias e do Avante! clandestino; das prisões e do cerco de morte do Tarrafal. Tudo «Para que tu e todos saibam que houve tempos muito difíceis, que não podemos esquecer».

Os Segredos da Censura, de César Príncipe

Desse país de opereta, inventado à medida da visão tacanha e paroquial que Salazar dele tinha, nos fala, na sucessão quase surreal dos cortes meticulosamente impostos pelo bando do reumático, o livro Os Segredos da Censura, de César Príncipe, que conta, nesta 2.ª edição, com um texto, em jeito de prefácio, «Quando os Coronéis Uivam», do jornalista e escritor Francisco Duarte Mangas, cujo afirma, remetendo para os dias de hoje: «Mais de quarenta anos depois do fim da Censura, este livro de César Príncipe, jornalista e escritor de raras qualidades, vítima da fúria dos coronéis, reaparece no momento certo. Pode parecer excessivo, todavia, mas Os Segredos da Censura ajudam a entender melhor o lamaçal em que a nossa comunicação social vertiginosamente imerge». Mangas e César sabem do que falam, percorreram ambos esses territórios do embuste e da mistificação, da verdade controlada, dos interesses obscuros que se escondem nas entrelinhas da prosa jornalística. Claro que há jornalismo enxuto, corajoso, jornalismo de causas, jornalismo subordinado à matéria de facto, mas é cada vez mais raro: os que detêm as rédeas do mando e do poder estão vigilantes e não perdoam derivações de lisura ou consciência. E os fantasmas ainda fervilham por sobre o pó de muitas redacções.

Entre centenas de exemplos que César Príncipe recolheu para este seu livro, saliento dois, por me parecerem paradigmas do que foi a censura no tempo de Salazar e Caetano, e de como a informação mais elementar era sonegada à opinião pública:

7/12/68 – «Universitárias varrem a Faculdade de Letras de Lisboa» – CORTAR

7/11/71 – «Patriarca de Lisboa demora na imposição do chapéu cardinalício». Em título, não pode.

Desse país amputado, que ignorava a sua realidade mais chã à força de lhe esconderem as feridas, a absurda pobreza; de lhe amansarem a revolta à custa de homílias, de trilogias desviantes e obscuras; patrulhado por uma corte de invertebrados cínicos, nos fala este livro de César Príncipe. E dos censores, essa trupe manhosa e soturna de «cortadores-talhantes de espírito» que peneiravam toda a prosa, até a mais inócua, dada à estampa; que cortava o repenicar dos beijos no cinema; a brejeirice nas revistas do Parque Mayer; que confiscava os livros de grandes autores (Redol, Cardoso Pires, Sttau Monteiro, Urbano, Sena, Abelaira, Manuel da Fonseca, etc.); que amputava as peças de teatro. Negavam-nos, com os mais elaborados métodos de persecução e silenciamento, o direito à verdade e ao sonho. Tudo para que a imaginação do povo não voasse além do poial da porta; para que os horizontes se fechassem no cinzento dos dias, dado que tudo aquilo que os censores cortavam não existia, como refere Francisco Duarte Mangas.

Não fora a nossa peculiar «arte do desenrasca», o nosso «anarquismo positivo», a prática dextra nos códigos de tribo e a capacidade de descodificar, nas entrelinhas, a linguagem cifrada que alguns jornalistas utilizavam e, sobretudo, os alertas militantes de um punhado de resistentes e teríamos sido tragados pelo absurdo.

Os Meus Misteriosos Pais, de José Viale Moutinho – Edição Lápis de Memórias/2016
Os Segredos da Censura, de César Príncipe (2.ª edição) – Edições Afrontamento/2016 1 Eduardo Lourenço, «O Labirinto da Saudade», p.86

 



Mais artigos de: Argumentos

POREXIT

A palavra tosca, feiosa e por agora inexistente que encima estas duas colunas nasceria por semelhança genética com a outra que nestes últimos dias percorreu as diversas formas de comunicação/manipulação social, e portanto também a televisão que nos entra em...

Estratégia nacional<br>para a toxicodependência

No dia 26 de junho comemora-se o Dia Internacional Contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas, ocasião muito oportuna para se fazer o balanço da situação internacional e nacional relativa aos consumos mas, igualmente, do impacto que as decisões do governo PSD/CDS tiveram...